| POVO
ARANÃ RESSURGE NA HISTÓRIA DO VALE DO JEQUITINHONHA |
Na
imaginação da grande maioria dos brasileiros, os indígenas,
quase sempre, aparecem como representantes de uma cultura
congelada no tempo. São nômades, vivem em aldeias e nus,
alimentando-se basicamente da pesca, da caça e da coleta. Na
verdade, este imaginário traz embutido uma cobrança por
parte de parcela dos "brancos" para que os indígenas
mantenham intacta sua identidade cultural. Como bem observa a
professora tuxá, Aldenora Vieira, esta cobrança é descabida
e, no mínimo perversa, uma vez que cobra-se dos indígenas
aquilo que no passado, lhes foi proibido e negado a
ferro e fogo: a língua, os costumes, a religião...
Após
cinco séculos de exploração e violência, poucos indígenas
se assemelham aos primeiros habitantes do Brasil. As
identidades da maioria dos grupos indígenas, aliás, como dos
demais membros das sociedades modernas, apresentam-se
"descentradas", deslocadas ou fragmentadas.
Especialmente no Nordeste, onde os índios pouco diferem dos
sertanejos pobres, meio acaboclados, que são encontrados no
interior da região, a não ser pela constante afirmação de
uma identidade cultural um tanto diferenciada que buscam
preservar a todo custo.
Neste
início de século XXI, a região de Coronel Murta e Araçuaí
vive um momento muito importante de sua história: famílias
identificadas pelo sobrenome Índio e famílias
identificadas pelo apelido Cabocla reivindicam ao
Governo Federal o reconhecimento de sua identidade enquanto
povo indígena Aranã.
O
assentamento (Fazenda Alagadiço), em 1994, de alguns
representantes da tribo Pankararu no município de Coronel
Murta, pela diocese de Araçuaí, foi um lampejo de esperança
para famílias remanescentes da tribo Aranã que
atualmente vivem nos municípios de Virgem da Lapa, Coronel
Murta e Araçuaí. Grupo migrante oriundo do estado
de Pernambuco, os Pankararu foram obrigados a sair de suas
terras em função da construção de uma usina hidrelétrica.
Na
fazenda Alagadiço, em Coronel Murta, vive grande parte das
famílias Aranã. O convívio com o Pankararu,
sua cultura e engajamento no movimento indígena, fez com que
estas famílias despertassem para um processo de busca de sua
origem étnica.
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Representantes das
tribos: Pataxó, Pankararu e Aranã
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De
acordo com a memória oral do grupo, que é constituído pela
família de sobrenome Índio e pela família de apelido
Cabocla, sua origem remete ao aldeamento de Itambacuri,
local para onde foram levados vários índios Aranã, no século
XIX.
“Com
origem na história dos Botocudos, (...) os Aranã foram
aldeados pelos missionários capuchinhos em 1873, no
Aldeamento Central de Nossa Senhora da Conceição do Rio
Doce, onde epidemias dizimaram a população. Alguns
sobreviventes migraram para o Aldeamento de Itambucuri”.
(Revista Povos Indígenas de Minas Gerais; 2000:16).
De
acordo com o professor José Carlos Machado, "com
a ferocidade do sangue botocudo nas veias, os Aranãs
expulsaram as tribos mais mansas do Urupuca e Surubim e aí se
estabeleceram. Mas não sobreviveram à luta com as tribos
mais fortes na disputa por terras e alimentos. Além disso, o
confronto com os colonos brancos e as doenças extinguiram
completamente a tribo Aranãs."
Segundo
a pedagoga e indigenista Geralda Chaves Soares, a Gêra,
até o final do século XIX os Aranã eram guerreiros,
donos da terra. Nessa época, o Vale do Mucuri começa a
receber os emigrantes alemães que iniciaram a colonização
na região de Teófilo Otoni. Os padres capuchinhos implantam
uma nova catequese, criando o aldeamento indígena de Nossa
Senhora dos Anjos de Itambacuri, que duraria até 1915.
Geralda Soares conta que a história oficial registra o extermínio
de mais de dois mil índios aldeados em Nossa Senhora dos
Anjos. "Existem relatos de tráfico de crianças
indígenas que eram levadas para serem criadas em
fazendas." Nestas condições, o povo Aranã
perdeu sua terra, sua cultura, e foi se definhando, num exílio
que parecia não ter fim. Dados históricos apontam para a
extinção desse povo após um período de epidemias e dispersão
de seus sobreviventes no Aldeamento de Itambacuri.
Nos
áureos tempos do Coronel Murta, no início do século
passado, um menino, "Mané Caboclo",
sobrevivente dos Aranã em Itambacuri, foi levado,
ainda quando criança, pela família Figueiredo para o Vale do
Jequitinhonha e ali foi criado como escravo numa fazenda,
juntamente com uma menina índia. Anos mais tarde, os dois se
casaram e tiveram três filhos. Um deles, Pedro Inácio Índio
de Souza, conhecido como "Pedro Índio" ou
"Pedro Sangê", é o pai do atual povo
Aranã através de um processo singular da identidade étnica do atual grupo:
Pedro registra em cartório civil todos os filhos com o
sobrenome “Índio”, transformando essa palavra
substantiva no patronímico de sua família. Assim, ele e seus
descendentes passam a se identificar e serem identificados
como “Índio”.
A
inserção do sobrenome Índio marca a necessidade de fazer
presente na sua história a inscrição de uma origem étnica.
Lembrados como homens de grande rebeldia, Manoel Caboclo
e Pedro Sangê teriam enfrentado o sistema de escravidão
através de atos, como este, de afirmação de uma identidade
indígena e resistência à dominação.
Pedro
Sangê, filho de Manuel Caboclo, transformou-se no patriarca
do atual grupo Aranã, que habita Minas Gerais.
Ele foi criado por fazendeiros em Virgem da Lapa (família
Figueiredo), e neste município, provavelmente, foi registrado
como Pedro Inácio Figueiredo, como assim consta na certidão
de batismo de um seus filhos.
Descrito
como homem de cabelos longos, que usava duas tranças, ele era
muito respeitado por sua coragem e bravura, sendo que a sua
imagem era imediatamente associada ao estereótipo indígena.
Todavia, ao contrário da maioria dos indígenas, Pedro possuía
o domínio da leitura e da escrita, o que surpreendia e
aumentava o respeito por ele, que também era sacristão de
Igreja, rezador, curandeiro, sapateiro e alfabetizador.
Considerado
também como um índio desaldeado, Pedro Sangê, como era mais
conhecido pelas festas que organizava, alfabetizou alguns de
seus treze filhos.
Trabalhador
em várias fazendas da região foi na Fazenda Campo, município
de Coronel Murta, que Pedro Sangê permaneceu por mais tempo,
constituindo a comunidade Aranã. Foi nesta região que a família
Índio teve contato com a família “Cabocla”, originando o
atual grupo étnico.
Ao
contrário da família Índio, o nome “caboclo” não surge
como sobrenome, mas como apelido, que remete a uma origem indígena,
apesar do tom de desqualificação e “domesticação” que
o mesmo implica.
Fixados
historicamente na região de Coronel Murta, nas terras do
Aldeamento dos Lorena dos Tokoyós, “Caboclos” e Índios,
além de possuírem uma ancestralidade indígena,
compartilharam o mesmo espaço territorial e o mesmo cotidiano
de trabalho braçal nas fazendas. Nesse sentido, não é por
acaso a união entre essas duas famílias.
Atualmente,
a grande parte dos Aranã estão na Fazenda Alagadiço. Alguns
vivem do artesanato e da atividade agropecuária, e uma das
marcas registradas dos indígenas é uma bebida de cor
avermelhada, denominada "Xamego" (mistura à
base de uma planta denominada "quiabinho".)
Após
anos de trabalho enquanto agregados, na década de 80, a Ruralminas
(então órgão estadual de terras) emitiu documento de posse
de terra para as famílias que para esta fazenda migraram em
busca de sobrevivência. Contudo, uma família Aranã
permanece na Fazenda Campo (Araçuaí-MG), onde a
dificuldade de acesso, a relação de exploração do trabalho
e o grave problema da falta de água (seca) marcam a realidade
atual.
Uma das filhas de Pedro Sangê, Rosa Índia,
mora em Ponto dos Volantes.
A
memória e o sentimento de pertencer a uma origem indígena se
faz fortemente presente pelos descendentes de Manuel
Caboclo. Para eles, o uso do sobrenome Índio foi a
forma encontrada pela família de garantir o registro de uma
identidade indígena, sendo também um ato de coragem e
rebeldia conta a dominação a que eram submetidos.
Conscientes somente há pouco tempo, através do convívio com
os Pankararu, de que os povo indígenas possuem
direitos constitucionais, os Aranã se organizaram para
conquistar o que lhes foi negado no passado: o direito de
viver plenamente sua indianidade. Eles lutam
para viver novamente em comunidade. A conquista do
reconhecimento étnico oficial, que implica na demarcação de
uma terra indígena é a principal luta desse povo, que
solicita o apoio da sociedade mineira, profissionais e
instituições para que a FUNAI dê início ao processo
administrativo de reconhecimento oficial do grupo.
A
organização não-governamental CEDEFES (Centro de
Documentação Eloy Ferreira da Silva) foi solicitada
pelos Aranã para registrar a sua história. Com uma
equipe de voluntários, a entidade está realizando um estudo
histórico antropológico sobre a etnia, que deve constituir
como um importante instrumento político nesse processo de
reconhecimento étnico oficial. O caso Aranã não se
configura como o único em Minas Gerais, muito menos no
Brasil. Vários são os casos de povos considerados
extintos, que no final do século XX, contrariando a concepção
e o senso comum do que é ser índio (corpo nu, cabelo liso, língua
específica, entre outros), reafirmam sua identidade étnica e
reivindicam seus direitos.
OS ARANÃ
VISITAM CAPELINHA
Em
junho 2001, o historiador Cezar Moreno, funcionário do
Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de
Defesa do Patrimônio Cultural da Procuradoria Geral da Justiça
de Minas Gerais e componente da equipe do CEDEFES pue
prepara o relatório final sobre os Aranã e autor do
livro "A Colonização e Povoamento do Baixo
Jequitinhonha em Minas Gerais no Século XX (A Guerra Justa
contra os Índios), entrou em contato com Tadeu
Oliveira, através da internet, em busca de informações
sobre a história dos índios Aranã no município de
Capelinha. Tadeu Oliveira, por sua vez, indicou-lhe o
professor José Carlos Machado que acabara de lançar
o livro Senhora da Graça da Capelinha, que relata a
história do município, bem como dos índios Aranã na
região. Desta época em diante, foram inúmeros os contatos
de Cezar Moreno com Tadeu Oliveira e José
Carlos Machado.
No
final de agosto e início de setembro de 2001, quando a SECMATUR
- Secretaria da Cultura, Meio Ambiente e Turismo de
Capelinha, a Casa da Cultura de Capelinha e FECAJE -
Federação Cultural e Artística do Vale do Jequitinhonha
preparavam-se para realizar o I Movimento Cultural e Ecológico
de Capelinha, Tadeu Oliveira e César Moreno
tiveram a idéia de convidar os índios Aranã para
participarem do acontecimento.
Esta
idéia não podia ter sido melhor, uma vez que o povo de
Capelinha recebeu o povo Aranã com muito carinho e
atenção, sendo inclusive, uma das grandes atrações do
Movimento. Afinal, se para a região de Coronel Murta e
Araçuaí o ressurgimento dos Aranã torna-se um
momento muito importante de sua história, para Capelinha representava
o encontro com a sua própria história.
No
Movimento Cultural foi criado um grupo temático
intitulado Cultura e História, sob a coordenação do
professor José Carlos Machado, cuja finalidade foi
ampliar a luta dos índios Aranã no seu reconhecimento
étnico, uma vez que eles são importantes para o povo de Capelinha,
que se apresenta perante a história como o seu berço.
A
primeira ação do Grupo Temático Cultura e História
foi agendar junto à Câmara Municipal de Capelinha uma reunião
com representantes do Conselho Indígena Aranã para
oficializar o reconhecimento étnico dos Aranã pelo
povo de Capelinha.
CAPELINHA
RECONHECE O POVO ARANÃ
Membros
do Conselho Indígena Aranã estiveram presentes, no
dia 12 de novembro de 2001, na reunião da Câmara
Municipal de Capelinha, com o objetivo de solicitar aos
vereadores uma "Moção de Apoio" à causa
Aranãs.
A
moção foi assinada por unanimidade, declarando apoio à luta
do Povo Aranã, tornando-se parte importante da documentação
a ser enviada aos órgãos federais competentes.
Fontes de
pesquisa para elaboração do texto:
Livro "Senhora
da Graça da Capelinha",
de José Carlos Machado, Primavera de 2000.
Revista Expresso Notícias,
Ano I, setembro/Outubro 2001,
n.° 02 - matéria assinada por Vanessa Caldeira (CEDEFES), pág.
19.
Revista Expresso Notícias, Ano I,
novembro/dezembro 2001,
n.° 03, págs. 10 e 11.
Estado de Minas
- Caderno Gerais,
edição de
31/01/2000 - título da matéria: Legítimos Caras Pintadas,
matéria elaborada pelo jornalista Tim Filho, da Sucursal Leste
(Governador Valadares).
Travessia - Revista
do Migrante,
publicação do CEM,
Ano XIV, n.° 39, janeiro/abril de 2001 - matéria assinada por
Ely Souza Estrela, pág. 42.
Geralda Chaves
Soares,
historiadora e
indigenista da cidade de Araçuaí.
Parte do texto foi extraído do site
www.indio.org.br
intitulado
POVO ARANÃ,
elaborado por
Vanessa Caldeira
e
Geralda Soares.
Sites
relacionados:
Povos
Indígenas no Brasil
www.indio.org.br
Fundação Nacional do Índio
www.funai.gov.br
Centro
de Documentação Eloy Ferreira da Silva
www.cedefes.org.br
Associação
Nacional de Ação Indigenista
www.anai.org.br
Conselho
Indigenista Missionário
www.cimi.org.br
MEC
- Ministério da Educação
www.mec.gov.br/sef/indigena
Museu
do Índio
www.museudoindio.org.br
Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil
www.cnbb.org.br
Tadeu Oliveira
manteve contato com
os índios Aranã, Pankararú e Pataxó, no mês de novembro de
2001, em visita à cidade de Araçuaí -MG e tornou-se um
colaborador da luta dos Aranã.
Fotos: Tico
Neves, Tadeu
Oliveira e Val Fernandes
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