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UM
VALE ONDE PASSA UM RIO... ONDE VIVE UM POVO!
O
Vale do Jequitinhonha é conhecido dentro e fora do estado de
Minas por suas inúmeras formas de manifestação cultural.
Aqui nosso povo trabalha o barro, a corda, o algodão, a
madeira, a taboa, o couro... num gesto mágico materializa com
as mãos as histórias ouvidas desde a infância. E surgem
bonecas ou máscaras, animais, seres imaginários... também
fazem pote, panela, buião, bule, xícara, prato, sapato,
cela... Nos teares encantados as mulheres vão tecendo
cobertores, panos, almofadas... Mas não pára aí o gesto
criador... Alegremente o povo se junta, canta, dança,
festeja, reconta suas histórias, refaz a memória! Essa é a
alma do povo do Vale. Povo que bate forte os pés no chão
duro, para perpetuar o que lhe foi transmitido pelas gerações
passadas, unem-se e dançam num movimento em que corpo e alma
participam!
Assim
somos nós! Ninguém teria tantas danças em círculo, de mãos
dadas, de braço dado, onde o ritmo de um é repetido pelo
outro. "Você também é daqui, com você dá pra dançar
junto!" E continua século após século o batuque, a
roda, o violão, a cantiga de ninar! Assim, de novo, se faz
viva a memória!
De
onde vem toda essa riqueza? Dizem netas de nossas artesãs: "Minha
avó era índia, foi pega no laço..." "Meu
bisavô era escravo..." "Muita coisa a gente
aprendeu deles..." Um foi ensinando para o outro mais
novo.
O
Coral Nossa Senhora do Rosário tem essa graça toda,
esse encanto que não morre nunca; são as raízes brotando do
chão fértil da nossa história. Vivemos os quinhentos anos
do Brasil. Vamos comemorar. Essa força vem do povo. De um
povo que, apesar das dificuldades, canta e torna o mundo mais
fraterno. Vamos todos nos dar as mãos, cantar e dançar com o
Coral Nossa Senhora do Rosário, que pelo próprio nome
já e sinal de resistência dos nossos antepassados negros.
Que
venham outros quinhentos anos com muito batuque, muita
cantoria, muita alegria neste Jequitinhonha encantado!
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Geralda
Soares
Historiadora e Pedagoga
Araçuaí - MG
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1.º CD:
"Queremos Navegar"
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O CANTO QUE VEM DO CORAÇÃO
Se
há algo que me atrai no que diz respeito à sonoridade
musical, duas se fazem pertinentes pelos seus efeitos mágicos
da encantação: banda de música e canto coral.
Inconscientemente vejo-me, corpo e alma, embalado pela
expansividade impulsiva e instintiva do movimento sonoro,
tanto pelo aspecto melódico quanto rítmico e mesmo harmônico,
talvez derivado da dinamogenia intrínseca ao ser humano.
Falar
destas duas formas de expressão musical é falar de Minas. E
falar, mais especificamente de canto coral popular, é falar
do Vale do Jequitinhonha.
O
primeiro dos corais a me atrair foi os Trovadores do Vale.
Deles, nasceu em mim uma identificação enorme por um
pedacinho deste rincão, conhecido como o Coração do
Vale: Araçuaí. Mas, até então, nunca tinha tido meios
de lá estar, pulsando junto ao coração daquela gente.
Veio-me a oportunidade de conhecer o Coral Nossa Senhora do
Rosário no 1.º Movimento Cultural de Capelinha, na
primeira semana de setembro de 2001, e a identificação com
os integrantes deu-se instantaneamente. No convívio daqueles
dias de intensa troca cultural, onde se encontravam gentes várias
a tecer uma nova manhã para a cultura do Vale, como bem
lembra Dim Martins citando o poeta João Cabral de Melo Neto,
pude compreender o motivo da força pulsante do som que vem de
lá do Calhauzinho: simplesmente a alegria de viver.
Viver a alegria de forma simples, humilde e
coletivamente.
Na
música evocada pelo Coral Nossa Senhora do Rosário
pode-se ser percebido por qualquer ser humano que se deixe
levar pela sensibilidade, que há um elo com a forma do homem
viver na Antiguidade, quando este era um ser mais propriamente
coletivo do que individual, diferente do que somos hoje. Isto
porque a música coral não se liberta da sua função
religiosa, mágica e social. Citando Mário de Andrade, a música
coral “é de determinação intrinsecamente inconsciente,
derivada apenas das exigências e leis fisiológicas e das
modificações antropogeográficas das raças. É o corpo que
se bota a cantar e se expande em voz. Numa voz qualquer, puro
movimento vital”.
De
onde vem tamanha vitalidade musical de um povo, como o povo de
Araçuaí? Seria apenas a herança dos cânticos das
lavadeiras da beira do rio, das cantigas dos tropeiros e
canoeiros a ligar os homens nas teias que tecem a vida do povo
do Vale ou da religiosidade popular que aflora na alma
coletiva?
A
música coral que vem de Araçuaí é isto e muito mais: ela
representa o amálgama da formação do povo mineiro e em
especial do Vale do Jequitinhonha. Nela está embutida a
rebeldia do negro fugidio a fundar quilombos pelo Vale, a
tenacidade e resistência indígena que habitaram a região,
frente à colonização portuguesa. Formas nascidas pela
psicologia e exigências de fases históricas que, se
acabaram, ainda se tornam impressas na alma deste povo. Música
socialística por natureza, o canto do Coral Nossa
Senhora do Rosário nos faz beber
a água da fonte pura de raiz cultural. Aliás, a pura fonte
das águas do rio Araçuaí...
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Tadeu
Oliveira
Programa Canta Minas
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