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Há mais 15 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque exclusivo para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e, assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 12 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras divagações a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CANTOS E ENCANTOS DE UMA PRAÇA

"Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, 
a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, 
serenatas regadas com muito vinho São Roque"

Praça Raul Ribeiro Gorgulho, a pracinha
Foto: Tadeu Oliveira

Por Tadeu Oliveira

Lá pelos idos anos 70 e 80 do século XX, havia um grupo de amigos em Corinto que ficou conhecido como a Turma da Pracinha. Constituído por adolescentes de ambos os sexos, com faixa etária girando entre 15 e 18 anos, a maioria de nós morava no entorno e adjacências da Praça Raul Ribeiro Gorgulho ou simplesmente Pracinha. Tratá-la no diminutivo, muito mais que referir-se ao seu pequeno tamanho em comparação com as outras três praças centrais da cidade, era também um tratamento carinhoso por aquele espaço ajardinado.

Em formato de triangulo retângulo, com área aproximada de noventa metros quadrados com ângulos arredondados é produto do cruzamento de três ruas: Expedicionários, cortada perpendicularmente pela Risoleta Lima e ambas cortadas concorrentemente pela Benedito Barbosa. Constitui-se de cinco canteiros, sendo um em cada vértice e dois maiores no lado da hipotenusa e no cateto oposto de maior medida com tamanhos proporcionais. Antes da recente reforma, possuía mais dois canteiros em forma de círculo que circundavam os seus postes telecônicos em curva dupla, um na parte mais larga e outro na parte mais estreita da praça. Oito bancos de concreto distribuídos em simetria bilateral eram os suportes para a boa prosa e as cantorias em qualquer hora do dia ou da noite ainda que em várias ocasiões a polícia militar, em suas constantes rondas, nos colocasse para dormir mais cedo. Era ainda o tempo da ditadura e de seus excessivos controles.

Meus sobrinhos Patrícia, Marcelo e Clóvis na pracinha florida
Foto: Acervo da Família Romão
Fora construída na segunda metade da década de 1960 pelo então prefeito Joel Bezerra, quando demoliram a casa do coveiro Levi Vitorino e suas irmãs Sebastiana e Dulce. Era lá em frente que ficava o ponto do ônibus Guaicuí, que vinha de Belo Horizonte rumo a Pirapora. Todos os dias, por volta das dez ou onze da manhã o Guaicuí promovia momentos de “encontros e despedidas”. Naquele tempo, quem cuidou dos seus jardins foi o Conrado e depois o “seu” Zé Conceição. Através das mãos zelosas destes servidores municipais flores de variadas cores brotavam de seus canteiros: rosas, margaridas, violetas, damas da noite, copos de leite, girassóis, cravos, azaleias, gérberas, palmas, lírios. 

A primeira geração a frequentá-la teve os meus manos Márcio, Berico e Fernando, os vizinhos Élcio e Hélio de Ismael, Duca de Salatiel e contou com nomes que fizeram história na música de Corinto: Mauredson, que cantava no Corintian's Boys, Tino Barbosa, Chicão de Paula, Zeínha e muitos outros. Essa turma fazia da pracinha o ponto de encontro para rodas musicais e concentração para serenatas. Enquanto eles cantavam, nós ainda com as calças curtas brincávamos à sua volta de amarelinha, caiu no poço, rouba bandeira, pegador de lata, bente-altas, par-a-par, mãe da rua, soltar papagaio, “camone bói”(*). E uma ou outra vez, algum casal arriscava namorar naquele pedaço de paraíso.

À medida que crescíamos, testemunhávamos as intervenções humanas em volta da praça. Vieram o asfalto, as demolições e as novas construções. A casa de “seu” Zé Três Metros deu lugar a um enorme galpão que abrigou supermercado, banco e comércio de exportações de cristais. A casa de Agripino e dona Flor deu lugar a uma loja de tintas. A venda de “seu” Ismael abrigou o supermercado da COBAL e a boutique de Lurdinha locomoveu-se pelos diversos cômodos daquele prédio. A venda de Joaquim Camilo transformou-se em açougue e depois num prédio de dois pavimentos. E a venda de papai serviu de feira de verduras, oficina de bicicletas e abrigou por muitos anos o bar do Luiz Meu Boi, o nosso “Empório Brasileiro”. Aliás, a oficina de bicicletas do Washington, a Ciclopeças Ferreira, ocupou em diferentes épocas as três esquinas do cruzamento da Expedicionários com a Risoleta Lima. Nas redondezas tinha também sacolão, a fábrica do picolé Sibéria, a sorveteria de Clemente Ávila, a vendinha de “seu” Vani e dona Zilda, o bar de dona Zezé e Joaquim Barbosa, a pensão Soares, local de inúmeras festas, e as casas residenciais de alguns de nós. Até igreja neopentecostal surgiu por ali.

Outra prazerosa vizinhança da pracinha foi o conjunto musical Corintian's Boys que ensaiava defronte minha casa. Assistir aos ensaios do repertório nacional e internacional com Beto Negrete, Joãozinho, Raimundo, Antônio, Odimar, Pedrinho de Alú, Goiaba e Niltinho não tinha preço.

Nossa cidade não herdou só o nome da metrópole grega. Herdou também a ágora. Aliás, muitas ágoras porque, se a Praça da Bandeira é o local das comemorações cívicas, a Praça da Fonte Luminosa o local da paquera e também da cultura, a Praça da Igreja o ponto dos aposentados da RFFSA, há pelo menos mais umas seis praças espalhadas pela cidade. E elas cumprem o mesmo fim da ágora grega que, em qualquer hora do dia, é o lugar de encontro onde se passeia ao ar livre, onde se fica sabendo das novidades, onde se discute política, onde se formam opiniões. Porém, não com todos os requisitos para servir às assembleias plenárias dos gregos e convocadas por um rei ou chefe da aristocracia para proclamações aos guerreiros ou administração da justiça. Não somente a ágora que serve de mercado aos comerciantes e sua clientela, mas a praça pública onde se misturam todos: transeuntes, curiosos e desocupados.

Foi nesse território público que nós, meninos e meninas de uma geração, vivemos momentos singulares. Ali naquele espaço dividimos sonhos e segredos. Foi na pracinha que se despertaram os primeiros amores. São tantas histórias vividas e perdidas nos porões das memórias de quem as viveu que decerto mereciam estar num livro se não tivesse outro lugar onde guardá-las.

Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, serenatas regadas com muito vinho São Roque. Era lá que planejávamos os luaus na lagoa da Escola Agrícola, as galinhadas feitas com matéria prima subtraída dos nossos próprios quintais, as festas na Pensão Soares ou nas nossas próprias casas.

Encontro de amigos na pracinha: Cica, Eliana, Tié, Gilberto e eu
Foto: Acervo de Simone F. Cruz
O fio que nos unia era a amizade e o anseio de liberdade. Por causa disso, jovens de outras tribos vieram de vários lugares da cidade para se juntar à turma da pracinha: do Triângulo, da Vila Maciel, do Curralinho, da região da Cooperativa dos Fazendeiros, da Hospedaria. A maioria eram cantadores e músicos e o surgimento do FECOR (Festival da Canção de Corinto) ajudou a sedimentar amizades, ampliar a rede de conhecidos ao extrapolar as fronteiras municipais e a possibilidade de se criar muitos vínculos bacanas.

Muito mais que um local de encontro, foi também um lugar de aprendizado. Principalmente para mim, que sempre tive dificuldade de me enquadrar nas diversas ondas surgentes. A convivência com vários desses amigos ainda hoje me faz saborear o lado mais doce da vida.

Porém, ela já não tem mais seus jardins floridos. Seus bancos não são mais os mesmos. Recentemente reformada, não conta com o mesmo glamour daquele tempo. No entanto, sempre que vou a Corinto faço questão de passar por lá, sentar num banco qualquer e, se possível, prosear com algum morador que resiste em viver no seu entorno.


(*) Camone bói: da frase “come on boy, pronunciada nos filmes de cowboy.