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Há mais 15 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque exclusivo para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e, assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 12 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras divagações a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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sábado, 12 de outubro de 2013

DESVELO: UMA CRÔNICA EM HOMENAGEM AO DIA DA CRIANÇA

Estou postando hoje, Dia da Criança, uma crônica que escrevi há alguns anos que retrata o universo infantil dos brinquedos e brincadeiras e a construção dos princípios éticos. Confira:

DESVELO
Por Tadeu Oliveira

O menino brinca no fundo do quintal envolto num mundo de sonhos, fantasias e mistérios...

Manguinhas verdes encravadas de pequenos gravetos formam a sua manada, que aboia pelas trilhas riscadas entre montinhos de mato e terra perto da horta infestada de borboletas a ziguezaguearem seus matizes. O buraquinho d’água, calçado com pedrinhas multicores serve-lhe como lago para o rebanho refrescar. Caixas de sapato vazias são casinhas de personagens moldados em barro. Vez em quando galos, galinhas e ninhadas de pintainhos aproximam-se do território trazendo perigo ao lugar.

Agora está a empunhar possante espingarda confeccionada  com a haste que sustenta a folha do mamoeiro. Montado no cabo da vassoura, transformada em alazão, luta contra inimigos saídos do seu fértil imaginário infantil, interpretando os heróis dos gibis de faroeste colecionados pelo irmão.

Assim são os dias do menino. O quintal é o espaço lúdico a embalar sonhos de moleque. Conforme a época do ano, vai-se transformando na arena livre onde vivencia experiências do que se vê, do que se comemora, do que se apreende. Lá é o seu mundo, onde é dono e senhor. É o rei que vence todas as batalhas imagináveis e inimagináveis. É o herói solitário no espaço restrito do terreiro, ora transformado em densa floresta onde é o caçador a derrotar sua presa, ora transformado num estádio de futebol onde subjuga adversários em homéricas vitórias. O quintal é tudo: fazenda, rio, castelo, ringue, picadeiro, estádio, estrada... 

A tristeza só o incomoda quando vê a desarmonia dos seus simples brinquedos com  brinquedos dos outros meninos. Na porta da rua, vendo-os brincar na calçada, sente as desigualdades impostas pelo mundo. Por que, enquanto brinca com seus rústicos brinquedos, construídos muitas vezes por suas próprias mãos, os outros brincam com carros à pilha, bolas de couro, aviões que voam de verdade e tantas outras modernas excentricida­des? A resposta mantém-se incógnita aos anseios infantis. O imponderável queima-lhe os recônditos da sua inocência. Interroga a mãe, sem resposta plausível para explicar-lhe as complexidades do mundo. O seu mundo é o das brincadeiras, o da mãe é só o esfregar de trouxas e mais trouxas de roupas para fora, garantindo o sustento do lar. Não bastasse as desproporções materiais, sofre na pele o preconceito da cor e da ilegitimidade paterna. Filho sem pai, filho da miséria, futuro marginal. O ferro do preconceito a predestinar-lhe o futuro. Que importam os valores? Vale-se pelo que se possui, não pelo que se é. 

Dia desses, o menino, cumprindo obrigação rotineira a nutrir-lhe o senso da responsabilidade, vai buscar o leite em casa de fornecedor, fazendeiro rico e pai de dois filhos que regulam a sua idade. Descobre, enquanto aguarda pelo atendimento, diversos brinquedos dos meninos abastados esparramados pela varanda. Olha um, aprecia outro, mexe daqui, remexe acolá, quando percebe, num canto, uma minúscula latinha de talco. Em meio a tantos brinquedos, justo aquela miniatura desperta-lhe a atenção. Tamanho é o enlevo que não percebe a empregada a roubar-lhe o sonho de posse. Vai-se com o leite, embebido no lirismo dos desejos. Se pudesse ter uma coisinha como aquela, para perfumar-se a caminho da escola, fazendo companhia à cheirosa filha do comerciante da esquina? Se levar consigo, no meio de tanta quinquilharias, ninguém dará por falta.

O plano é executado no dia seguinte. E o põe em prática assim que chega. Antes de chamar pela empregada, enfia calçãozinho adentro o pequenino objeto. Toma o rumo de casa, mais feliz impossível. Só não contava que a felicidade lhe seria tão efêmera. A mãe percebe o pequeno objeto, inquire-o a respeito e ele tenta safar-se. Aperta o interrogatório e o menino confessa. Onde já se viu, filho meu, apropriar-se de coisas alheias? Que vá imediatamente repor ao devido lugar o que não lhe pertence. O menino chora, implora à mãe que ameaça surrá-lo. Como devolver agora? Deixasse para o outro dia quando a vergonha será menor, implora o menino em copioso pranto. Contanto que prometa nunca mais agir daquela forma, a mãe prorroga-lhe a devolução com um afago nos cabelos.

Dia seguinte, lá vai o menino cumprir a rotina levando dentro do calção um pedacinho do seu sonho. Enquanto a empregada aparece, balbucia um comentário qualquer sobre o sedutor objeto envolto nas mãos pequeninas. Entrega-lhe a latinha de talco, recebendo de volta a vasilha do leite. Dá meia volta com os olhinhos em lágrimas.

A pobreza e limitações agora estão acrescidas pela ética da vida. Preconceito algum apagará da memória o conhecimento dos limites da propriedade nem subtrairá do caráter as diferenças todas, impostas pela vida.

O menino brinca no fundo do quintal envolto num mundo de realidades e revelações...