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Há mais 15 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque exclusivo para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e, assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 12 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras divagações a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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domingo, 3 de abril de 2011

A CANÇÃO QUE MARCA

A CANÇÃO QUE MARCA(*)

Tadeu Oliveira

“No meio do meu caminho sempre haverá uma pedra, plantarei a minha casa numa cidade de pedra”. Enquanto Valério arrancava os acordes do violão eu, Chiquinho Papão e Dalton esmerávamos nos vocais: “pedra miúda rolando sem vida”. Talvez daí tenha surgido minha primeira identificação com o Vale do Jequitinhonha

Fotografia de Roberto Rocha de pintura feita por
Yara Tupinambá(**)
A primeira vez que ouvi “Itamarandiba”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, já se vão 27 anos. Foi lá em Corinto, quando ensaiava os primeiros vôos de liberdade para todas as direções da vida no frescor da juventude, junto de outros companheiros da turma da pracinha. Nas rodas de violão, no banco da praça, ou nas rodas de cerveja, na esquina do bar de Luiz-meu-boi, ela sempre era solicitada. Tié, com seu porte altivo de príncipe africano, incorporava o seu ídolo Bituca e puxava: “No meio do meu caminho sempre haverá uma pedra, plantarei a minha casa numa cidade de pedra”. Enquanto Valério arrancava os acordes do violão eu, Chiquinho Papão e Dalton esmerávamos nos vocais: “pedra miúda rolando sem vida”. Talvez daí tenha surgido minha primeira identificação com o Vale do Jequitinhonha. “No caminho dessa cidade passarás por Turmalina, sonharás com Pedra Azul, viverás em Diamantina”.

Por essa época, já me aventurava pelo Vale. Primeiro a terra de JK, quando os festivais de inverno nos atraíam, ainda que não fôssemos estudantes universitários. Turmalina conheci por intermédio do seu filho Afonso Orsine, então subgerente da Minas Caixa em Corinto, num tempo em que o FESTUR - Festival da Canção de Turmalina – preparava-se para dar seu primeiros passos. Pedra Azul, essa ainda não conheci a não ser pelo talento dos seus ilustres filhos Saulo Laranjeira e Paulinho Pedra Azul. Itamarandiba, a cidade que empresta o nome para a música a qual me refiro, conheci, por acaso, em 81, quando eu e outros jovens corintianos resolvemos nos inscrever num concurso público para o Banco do Brasil, em Capelinha. Na ocasião, dizia-se que a concorrência era menor no Vale do Jequitinhonha. Afinal, pensava-se, quem gostaria de se estabelecer em lugares em que a vida era “miúda e quase sem brilho”?

Quando, em 1982, fui tentar a sorte em BH, a paixão pelo Vale se consolidou ao assistir no Palácio das Artes o show “Onhas do Jequi” a ponto de eu profetizar que um dia haveria de morar nesse lugar onde “as mulheres são morenas” e “os homens serão felizes como se fossem meninos”. Esse desejo ficou hibernado até 1997, ano em que me mudei para Capelinha. E aqui se deu o início da minha simbiose cultural que se intensificaria a partir de 2001, ao iniciar o trabalho com o coral Vozes das Veredas, de Veredinha. Foi lá, que num dia qualquer, irrompeu da minha letárgica memória musical a música “Itamarandiba”. Não sei ao certo o que fez com que as meninas de Veredinha se apaixonassem e incorporassem a música para si. Quem sabe não seria o fato de o rio homônimo cortar o município de Veredinha e algumas delas terem se banhado no manancial cristalino ou se estirado ao sol sobre as pedras esculpidas pelas águas? Ou quem sabe ouviram dos mais velhos, velhas cantorias e histórias cantadas e contadas na beira do rio?

Dia chegou em que o coral foi cantar pela primeira vez na capital mineira. Era o 2º Festival de Corais de Belo Horizonte, que prestava homenagem ao Clube da Esquina e é claro que “Itamarandiba” estava no nosso repertório. Corria o mês de novembro de 2004 e a nossa estréia se deu no museu Abílio Barreto, um lugar que por si só já nos dava um frio na barriga e, principalmente, porque ali se encontravam corais de vários estilos e diferentes do nosso. Quando as meninas, sob o meu comando, cantaram “Itamarandiba” jamais imaginávamos que a platéia nos ovacionaria e que entre os assistentes estaria um dos autores da música. Após nossa apresentação o coordenador do Festival maestro Lindomar Gomes nos apresentou ao Fernando Brant. Entre uma e outra fotografia, não perdi tempo. Solicitei-lhe a cessão dos direitos autorais da música para gravarmos num provável CD que não passava ainda de um sonho. Surpresa maior que ter o mestre Fernando Brant nos ouvindo foi sermos citados, cinco dias depois, em sua crônica semanal no jornal Estado de Minas.

No ano seguinte, a oportunidade de gravar o primeiro CD do Coral de Veredinha se concretizou e Fernando Brant nos honrou com sua promessa cedendo não só a música “Itamarandiba”, como também “Gente que vem de Lisboa/Peixinhos do Mar”, adaptação dele e Tavinho Moura. Além de nos ceder os direitos, intermediou junto a Milton Nascimento e Tavinho Moura a liberação de suas partes.

Nossa gratidão por ele não tem limites. E a única forma de agradecê-lo é cantá-la sempre em nossas apresentações. Em qualquer lugar que o Coral Vozes das Veredas cante há sempre uma voz que lá do meio da multidão grita: “Itamarandibaaa!!!” Os olhos das meninas brilham e se expandem em alegria e, enquanto nos recônditos da minh’alma me reporto à turma da pracinha, sentimos que a vida já não é tão “miúda e quase sem brilho”.

Dessa história toda, o mais interessante de tudo é que agora estou aqui, na alvorada do século XXI, cabelos grisalhos nas têmporas, cantando “Itamarandiba”, na cidade que empresta o nome à canção, rodeado de meninas louras, mulatas e morenas que integram um outro coral, o Mali Martin. Meninas que sequer haviam nascido quando a vida me tangeu para o Jequitinhonha. Enquanto aguardo o prenúncio de novas primaveras, vou tocando o meu violão e cantando com elas, sentindo brotar uma forte emoção em meu peito. Uma felicidade própria dos homens que habitam o Vale e que bem diz a canção do Milton e do Brant. Cá estou, feliz “como se eu fosse um menino”.

(*) Texto escrito em julho de 2007 e publicado no site do Museu Clube da Esquina. Tadeu Oliveira comandou o Coral Mali Martin, do Centro Social Mali Martin da cidade de Itamarandiba, de maio de 2005 até dezembro de 2008.

(**) Fotografia feita por Roberto Rocha, do quadro em óleo sobre tela (0,95 x 1,00 m) de autoria da artista plástica Yara Tupinambá, intitulado "Itamarandiba", feito exclusivamente para integrar a exposição em comemoração aos "40 anos de Travessia", com curadoria de Thelmo Lins e realização da Copasa, exposta na Galeria de Arte Copasa no período de 17 de novembro de 2007 a 06 de janeiro de 2008, reproduzida do caderno especial da exposição.

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