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Há mais 15 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque exclusivo para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e, assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 12 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras divagações a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

PAULO PAGANI: ALÉM DA UTOPIA

Tadeu Oliveira

Almenara, 25 de fevereiro de 2008. Acordo bem cedo e vejo pela fresta da janela que lá fora um belo dia ensolarado me espera, a despeito da noite maldormida por causa do esquadrão de muriçocas que tirou a minha paz noturna. Estou hospedado no Hotel Vigia, de dona Ilda Lima, mãe da minha grande amiga e companheira na educação de base, Cleide Lima. Ela e sua mãe, por mais que tenham se esmerado em cuidados para proteger-me das renitentes muriçocas, não obtiveram êxito. Cidades em beira de rio e com temperaturaa elevada é assim mesmo. Faz lembrar-me das tantas noites quentes que passei nos verões corintianos.

Consulto o relógio e vejo que ainda disponho de um tempinho sobrando antes de dirigir-me ao Centro Diocesano para, junto com minhas colegas formadoras, ministrar mais uma formação de alfabetizadores do Programa Cidadão Nota Dez, atendendo ao convite da Cleide Lima. Serão duas semanas de treinamento em que abordarei temas sobre educação de base, Andragogia e a metodologia Ver, Julgar e Agir prpostas pelo programa Cidadão Nota Dez.

Antes de ir para o banho, ligo a TV para assistir ao noticiário do jornal global Bom Dia Minas e ver os gols da vitória do Cruzeiro sobre o Villa Nova, em jogo válido pela sexta rodada do campeonato mineiro. Afinal, são quase três dias sem saber o que se passa pelo mundo, principalmente nas nossas Minas.

Vou me arrumando entre uma e outra notícia quando a voz do apresentador informa que as “vítimas de acidente aéreo na Serra do Curral, próximo ao Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte, são enterradas nesse domingo”. Para mim não passaria de mais uma notícia de tantos acidentes que acontecem todo dia, se não fosse o nome de uma das vítimas: “...muitas pessoas acompanharam a cerimônia de cremação dos corpos dos pilotos, Paulo Sérgio Pagani Vieira Machado, de 46 anos...”

Estupefato com a notícia, nem me dei conta de gols ou de qualquer outro assunto. Afinal, Paulo Sérgio Pagani Vieira Machado é o nome completo do meu conterrâneo Paulinho Pagani, um dos idealizadores do FECOR-Festival da Canção de Corinto e do FESTUR-Festival da Canção de Turmalina, com quem tive o privilégio de conviver na juventude e em outros momentos pela vida afora. Vida que terminara no sábado, manhã do dia 23 de fevereiro, ao chocar-se com a Serra do Curral pilotando o avião modelo Corisco II.

Busco me recompor e dominar as emoções. Penso em sua família e como eles devem estar agora. A família Vieira Machado sempre foi muito unida. E pensando neles, retrocedo-me mentalmente para Corinto, num tempo em que pude conviver de perto com vários deles.


Família Vieira Machado no 23º Festur: Homenagem a Paulo Pagani
(ao lado da mãe) - Foto: www.turmalina.mg.gov.br

Muito cedo a família Vieira Machado despertara-me a atenção. A começar pela sua irmã Consuelo, o meu primeiro dos muitos amores platônicos na infância. Consuelo foi uma das mais belas adolescentes da sua geração em Corinto. Os momentos mais enlevantes que guardo dela são as coroações a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município, no mês de maio. Ela se destacava  entre os demais anjos no altar da Matriz pela sua candura. Pele alva, faces rosadas, um belíssimo rosto emoldurado por uma cabeleira formada de cachos dourados qual um quadro renascentista. Qual criança não haveria de se encantar?
Na minha adolescência, tive o privilégio de ser aluno do seu pai, o saudoso professor Joaquim Vieira Machado, no Centro de Formação Profissional, antiga Escola Profissional da RFFS/A. Professor Joaquim também se notabilizou como dirigente do já extinto Ginásio Ferroviário, colégio criado para atender aos filhos dos ferroviários e gentes menos abastadas.
Recordo-me do professor Joaquim ministrando aulas de canto. Colocava toda turma para cantar os hinos nacional, da bandeira, da república e da independência. Nos ensaios na sala de aula, soltávamos os pulmões cantando quase como um brado. Fazíamos arranjos vocais imitando a parte instrumental dos hinos, o que às vezes irritava o professor. Desacorçoado ele ficava mesmo era no dia das solenidades oficiais. O nosso entusiasmo dos ensaios dava lugar a um canto para dentro, preso e sem nenhum brilho. Na verdade, não era pirraça e sim a timidez que nos consumia diante dos olhares nem um pouco complacentes de alguns ferroviários gozadores.

Era o ano de 1978 ou 1979, se me lembro bem... e o professor Joaquim andava muito cansado, talvez consumido pelos anos dedicados à docência. E justo num feriado da semana da pátria, quando buscava recarregar as energias e dar mais atenção aos entes queridos, foi acampar com a família e surpreendeu a todos ao ser arrebatado deste mundo por uma morte repentina. Na época a maioria de nós, seus alunos, ficamos abatidos por um remorso por julgarmos culpados pela sua morte por causa do excesso de molecagens nas suas aulas.

A morte repentina do professor foi uma surpresa porque a mãe de Paulinho, dona Maria Raimunda, que também trabalhava no Centro de Formação junto à secretaria da instituição, usava marca-passo há algum tempo. O boato que corria pelos quatro cantos era de que pessoas usavam este aparelho não podiam ser contrariadas porque corriam risco de ter um colapso a qualquer hora. Pelo menos era o que se dizia por toda a cidade. Todos nós tínhamos o maior cuidado em não constrangê-la por medo de ela ter algum problema naquele coração que julgávamos tão frágil, mas que resistiu à morte do esposo e, agora, do seu filho amado.

Quanto ao Carlos Vinícius, o  caçula da família, nunca tive um contato próximo, mas sei que é um grande entusiasta do carnaval corintiano, assim como o Paulinho foi. Afinal, por mais decadente que o Carnaval de Corinto possa se encontrar em algum momento, Carlinhos sempre está lá esbanjando vitalidade e alegria.

Conheci Paulinho no “tempo de brumas e dias incertos”, como bem frisou nosso amigo em comum, Pedro Américo. Estudávamos no Instituto Dom Serafim, conhecido mais como o Colégio das Irmãs por pertencer à Ordem das Irmãs Clarissas Franciscanas. Eu estava um ano à frente de Paulinho, mas a minha vontade de ser da turma dele era enorme. Ali no colégio Paulinho e seus colegas de turma começaram a chamar a atenção por propor ideias interessantes e fazer protestos contra a direção do Dom Serafim. Um desses protestos, me lembro bem, deu-se quando a irmã Diretora resolvera cortar algumas árvores do pátio para fazer uma nova quadra poliesportiva. A turma dele não era contra a construção da quadra, mesmo porque as duas que havia no colégio tinha um piso que mais parecia um ralador de mamão. Não raro, muitos de nós saíamos das disputas esportivas todos relepados. O fato é que já existia uma consciência ecológica brotando naqueles jovens. Alguns deles também começavam a despertar uma consciência política fruto da militância em grupos de jovens da paróquia local, sob a influência do franciscano holandês Frei Edvaldo. E assim, a turma de Paulinho pichou o muro do colégio com dizeres mais ou menos assim: “Plante (ou adote?) uma quadra e corte uma árvore”.
Quando eu me preparava para formar o segundo grau no Curso de Análises Clínicas do Dom Serafim e como ajustador mecânico no Centro de Formação Profissional da Rede Ferroviária, Paulinho e seus asseclas já arregaçavam as mangas para fundar um jornal e criar um festival de música no colégio, a despeito de toda reprovação da direção. “Ainda não tinham percebido que estava chegando o fim da longa noite escura”.

A simpatia de Paulinho, seu sorriso franco e largo, sua humildade aliados ao seu inflamado sonho de liberdade e poder de aglutinação aumentou o número de adeptos e tanto o jornal quanto o festival tornaram-se realidade no início dos anos de 1980. Reporto-me uma vez mais a Pedro Américo: “Não tiveram tempo para proibir o festival. Não perceberam o que estava para acontecer. O galpão da feira ganhou um palco e o sobrado da dona Maria Raimunda, mãe do Paulinho Pagani, foi transformado em ponto de apoio para receber os jovens que chegavam de todos os lugares. Naquela manhã de festival a cidade acordou com centenas deles pelas ruas e praças.” E assim, no dia 06 de setembro de 1980, no Centro Comercial da Municipalidade, Paulinho Pagani, Edilberto Fernandes, Pedro Américo, Wander Almeida, Ustane Pedras, Rosana Galuppo, Zezinho Assunção, Ernane Almeida, Plínio Silva, Marília Leal, Jorge Mainart, Renato Oliveira, Afrânio Baeta, Madre Sílvia, Gilvan Oliveira  e muitos outros jovens daquela geração concretizavam o sonho de realizar um festival de música em Corinto.

Naquele ano de 1980, muitos de nós que integrávamos o movimento cultural de Corinto ingressamos na Mina Caixa através de concurso público realizado no ano anterior. Como eu passara em primeiro lugar, optei por ficar em Corinto. No entanto, muitos colegas e amigos meus foram chamados para trabalhar em diversas cidades da regional de Curvelo, que compreendia as cidades de Unaí, João Pinheiro e Paracatu por um lado e no outro extremo Capelinha, Minas Novas, Itamarandiba e Turmalina. Espalhados os amigos, espalharam-se as ideias e os ideais. E assim, Paulinho deu continuidade ao movimento que se iniciara em Corinto e que no correr dos anos tornou-se consistente, ao incentivar jovens de Turmalina a também criarem um festival. E contrariamente ao destino do festival de Corinto, o de Turmalina persiste até hoje. Outras cidades como Curvelo, Felixlândia, Pirapora e Sete Lagoas também sofreram influências do festival de Corinto e também organizaram os seus.
Cartaz 23º Festur/2008: Homenagem a Paulo Pagani
Foto: OIavo Ferreira

Em 1984, após morar por mais de dois anos na capital mineira eu e Pagani, qual ave de arribação, invertemos nossas trajetórias. Enquanto eu voltava para Corinto, depois de muito bater cabeça por Belo Horizonte, ele saía de Turmalina com destino à capital. E, coincidentemente, lotaram-no na mesma agência em que eu acabara de sair, a saudosa agência Getúlio Vargas, no bairro dos Funcionários. Continuamos a fazer e ter amigos em comuns.

Na capital mineira Paulinho enfim haveria de realizar um sonho que perseguia desde a adolescência: tornar-se piloto de avião. A liquidação extra-oficial da Minas Caixa feita covardemente na calada da noite e na troca do comando político de Minas, no ano de 1991, na verdade uma queima de arquivo, fez com que ele apressasse em levar adiante o seu novo empreendimento. E assim, Paulinho tornou-se um empresário no setor de fretamento turístico e piloto de avião. E tudo indica Paulinho continuou o seu ideário de lutas junto aos companheiros da categoria de fretamento e transporte turístico, dado as manisfestações recebidas do Sindicato dos Empresários do ramo, por ocasião da sua morte.

De lá pra cá tivemos alguns encontros esporádicos, às vezes sem necessidade de presença física. Um desses encontros aconteceu numa eleição para escolha dos novos dirigentes municipais. Saí de Capelinha com destino a Corinto sem definir-me quanto a escolha de um candidato a vereador. Ao entrar na cidade, o primeiro nome que me deparei num muro foi o de Paulinho. E não hesitei em dar-lhe meu voto dado a sua história, sua paixão e compromisso com a vida e com a liberdade.
Outro encontro legal (e o último fisicamente presentes) ocorreu no carnaval de 2004. O carnaval corria insosso quando surgiu Paulinho com um monte de camisetas do bloco da Lídia conclamando os foliões. Contagiado por ele e pelo seu irmão Carlos Vinícius, arrisquei-me inclusive a animar a enorme boneca da Lídia por um bom percurso do desfile.

Entretanto o encontro mais belo que tive com Pagani deu-se em Turmalina. Não saberia precisar bem o ano... 2003... 2004? Nesses dois anos, atuei como jurado do FESTUR e como oficineiro, além de comandar apresentações do Coral de Veredinha. Era um final de tarde e ficamos ali pela praça jogando conversa fora a espera do cair da noite para mais uma apresentação dos concorrentes no festival. Alguém da comissão julgadora anunciou que o idealizador do FESTUR estava ali. Paulinho Pagani foi ao palco e de posse do microfone relembrou os dias de luta, os anseios e incertezas que culminaram numa apoteose vivida naquele distante reveillon de 1983, quando o cantor Arnô Maciel conquistou o primeiro lugar defendendo a música "Pintura", composta pelo seu irmão Arlindo Maciel. Música esta que fora o prenúncio do seu sonho de liberdade e do seu destino. Sem se preocupar com a afinação, carregado de emoção e da sua peculiar paixão pela vida, Paulinho entoou “Pintura” com o mesmo fogo de liberdade que embalou sua juventude: Voa ave voa / Me ensina o teu vôo / Ou mostra pelo menos / Um pouco do teu canto / Plana nessa brisa / Me ensina o segredo / Me diz, não tenha medo / Que eu sou teu amigo / Te mostro o perigo / Dessa gente toda / Me ensine o encanto / Destas tuas asas / Me leva prá longe / Do cheiro destas ruas / Voa ave voa / Me ensine a beleza / Dessa vida solta / Me ensine a pintura / Dessa natureza / Me mostra a tinta / Risque esse detalhe / Na tela do espaço / No claro do céu / Te empresto o pincel / Tu traças o verde / Mas deixa que eu coloque / O cheiro do vento / Completa o movimento”.

Volto para o presente ao som das batidas da Cleide na porta do quarto avisando-me que o café já está na mesa e que cerca de oitenta alfabetizadores nos esperam no Centro Diocesano. Refaço-me das fortes emoções causadas pelas lembranças e rogo a Deus que dê força aos familiares e amigos de Paulinho.

Minutos depois sigo para o Centro Diocesano refletindo sobre o quanto efêmera é a nossa existência. Enquanto sigo, folheio um livro de Paulo Freire e deparo-me com a seguinte frase: não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.” Sinto no meu coração o sorriso aberto e franco de Paulinho. Entro na sala seguro de que poderei contribuir de alguma forma para re-acender novas esperanças para o povo do Vale do Jequitinhonha.

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