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Há mais 15 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque exclusivo para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e, assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 12 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras divagações a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CAUSO 6: O BOI DA MANTA



O BOI DA MANTA

Tadeu Oliveira

Zé Rico foi um grande apaixonado pelo carnaval de Corinto. Num dos carnavais da década de 1970, ele criou o bloco da Lídia, uma boneca negra imensa vestida de chita, bem ao estilo daquelas bonecas do carnaval do Recife.

No carnaval seguinte, Zé Rico apareceu com um outro personagem, o Cabeção. Como o próprio nome sugere, era um boneco de cabeça enorme e que desfilava cortejando a sua amada Lídia.

Lídia e Cabeçao 2010 - Foto: Tadeu Oliveira
A partir de então, a cidade foi tomada de tamanha alegria a ponto de o povo já não conter a ansiedade até o carnaval seguinte para acompanhar o bloco e ver o que Zé Rico aprontaria. E assim aconteceu. Mais outro ano e a Lídia e o fiel parceiro Cabeção apareceram com o Cabecinha, primeiro filho do casal de bonecos. E no quarto ano consecutivo, foi a vez de Lidinha, também filha do casal.

Percebendo que a cada ano o bloco crescia, Zé Rico apareceu com mais uma novidade: colocou um boi para abrir alas. Conhecido como Boi da Manta, uma variação do Bumba-meu-boi, o novo personagem investia sobre a multidão para abrir alas para o Bloco da Lídia e do Cabeção desfilar arrastando os seus passistas ao batuque dos ritimistas.

O Boi, assim como os bonecos, era constituído por uma armação feita de papel machê pintado de preto sobre uma estrutura trançada de arame e muito bem compacto. Na verdade, parecia mais um enorme touro negro com uma espécie de parangolés a enfeitá-lo. A parte de baixo era aberta e cabia uma pessoa que se encarregava de conduzí-lo pela rua afora.

O Boi da Manta era uma atração à parte para a molecada. O prazer dos meninos era cutucá-lo na expectativa de vê-lo investindo sobre a multidão que fugia em polvorosa.

Deu-se que o Bloco da Lídia, do Cabeção e sua filharada se preparava para mais um desfile. Todo mundo eufórico: os passistas se esmerando nas indumentárias, os ritimistas afinando o couro dos instrumentos e Zé Rico dando os retoques finais.

Quando já se encaminhavam para as bandas da Rua do Footing, local de aglomeração dos blocos, alguém gritou que o boi ficara para trás. Para sair debaixo das bonecas era uma disputa danada. Mas para sair debaixo do Boi da Manta, poucos se arriscavam. O boi sempre sobrava para Mossorongo, alcunha de Vicente Conceição Magalhães, um sujeito simples, funcionário de um açougue local. Mossorongo sempre adorou carnaval e era sempre cogitado para empurrar os carros alegóricos ou os carrinhos que transportavam os tambores treme-terra, botijões de gás e outros instrumentos percussivos. (Em Corinto, o botijão de gás vazio era peça fundamental nas baterias de escola de samba).

E assim, correram lá no barracão do fundo da casa de Zé Rico e trouxeram o boi colocando-o sobre Mossorongo já a caminho da Rua do Footing. Como havia cerca de um ano que o boi estava encostado, arrumaram um molambo e bateram sobre ele a fim de retirar o excesso de poeira.

O Boi da Manta em 2010 - Foto: Tadeu Oliveira
Quando o bloco entrou na Rua do Footing, ali perto da ponte sobre a linha da estação ferroviária, o boi já estava todo espevitado, fazendo acrobacias nunca dantes imaginadas. Ao ganhar a metade da Rua do Footing, o Boi da Manta dava pinotes e mais pinotes sobre a multidão que se instalara para ver o desfile passar. Nunca, nos anos anteriores, se vira o boi tão bravo. Moleque nenhum arriscou mexer com ele. Na verdade, ninguém se aventurou ficar a menos de dez metros do boi, pois este fazia malabarismos tresloucados.

Os policiais que faziam a segurança através de um cordão de isolamento começaram a ficar preocupados porque nem mesmo o mais respeitado e temido soldado do pelotão corintiano, o João Preto, deu jeito no Boi. Este, audaciosamente, chegou a desferir-lhe uma chifrada na altura do baixo ventre. Aí foi demais!

O pessoal do bloco começou a estranhar, afinal Mossorongo era um sujeito pacato. Não era dado a estripulias e nem bebia a ponto de sair do normal. No entanto, ele estava indócil e incontido.

E ali, na esquina da Rua do Footing com a Capitão Altino, quase de frente a antiga loja do Disco Brasa, pararam o desfile para verificar o que se passava com Mossorongo.

Após muita peleja e safanões, enfim o dominaram. Houve alguma dificuldade ao tentarem retirar a armação de cima de Mossorongo porque ela se enganchara em sua cabeça. Quando enfim o livraram do boi, para surpresa de todo bloco, a cabeça de Mossorongo estava num inchaço só, emendando as bochechas com as orelhas e o pescoço. 

Como o boi ficara quase um ano guardado lá nos fundos do barracão de Zé Rico, foi o bastante para que marimbondos construíssem uma casa dentro do corpo do boi. Quando Mossorongo meteu a cabeça boi adentro, esmagou a caixa de marimbondos com o cocuruto. A dificuldade de se ver livre daquele boizão pesado por si só e o barulho do batuque impediram que o bloco ouvisse seus pedidos de socorro. O desespero foi tão grande que Mossorongo se debatia em vão. Explica-se, portanto, tamanha animação e acrobacias do Boi da Manta.

Fonte da ilustração: Blog do Chico de Paula

4 comentários:

  1. Thadeu, estou rindo até agora!Coitado do moço,que desespero!Esse "causo" é de verdade mesmo?
    Um beijão,
    Anna Paula que era de Corinto e depois de Capelinha.

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    Respostas
    1. Ana Paula,

      Todo mundo de Corinto diz que é verdade. Inclusive, quando fui escrever o causo, pedi Clovinho para consultá-lo se eu poderia usar o apelido dele. Ele foi taxativo: pode contar o fato, mas tem colocar o meu nome todo: Vicente Conceição Magalhães. E exigiu um cópia.

      Beijos Gerais!!!
      Tadeu Oliveira

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  2. Zoronga garimpou uma boa história prá contar... Já dei boas risadas por aqui!

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    Respostas
    1. Olá Maria Zoronga,
      Que bom que gostou! Esse é um caso acontecido verdadeiramente lá na minha terra. É claro que quem conta um conto aumenta um ponto. Quando solicitei ao protagonista autorização para publicá-lo, ele só colocou uma condição: que você coloque o meu nome completo e não o apelido. Infelizmente, o nosso protagonista já não está mais entre nós.

      Abraços Gerais! Inté, uai!!!

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